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Gravura Quimérica

Braços e pernas e patas balançam descontroladamente das extremidades de um nó branco com sombreado vermelho e preto; um corpo de boneca tem a cabeça trocada por plantas, animais e úteros humanos; cabeças de peixes e polvos fazem as vezes da parte superior de um corpo feminino em posições de yoga; espigas de milho tornam-se meio para uma paródica equitação de figuras históricas.

Essa poderia ser uma descrição de uma peça surrealista/dadaísta, ou mesmo uma variante latino americana do teatro do absurdo em chave feminista, mas trata-se do descritivo de algumas gravuras presentes nessa individual da artista brasileira Natali Tubenchlak.

Natural de Niterói, Tubenchlak tem trabalhado ao longo dos anos com diversas mídias etécnicas em uma produção marcada pela ironia bem-humorada, pelo despojamento decerta sisudez técnica em prol de um hibridismo temático e processual, e pela miscelânea de linguagens para melhor sintetizar os jogos de representação que a interessam, sendo que, em meio a esses processos, sua vocação gráfica é notável.

Na tradição da gravura em metal, é na superfície da placa que os desenhos tomam corpo para viabilizar o entintamento e a impressão - e é no gesto de sulcagem de Tubenchlak, nesse marcar assertivo de relevos e texturas na matriz, que se percebe um zelo na reprodução dos impressos que se aproxima de um gestar maternal das imagens. A cologravura, técnica preterida por muitos, mas muito presente na produção de Tubenchlak, ganha nas mãos da artista toques de sofisticação conceitual, justamente pelo cuidado empregado em seus procedimentos de produção e impressão.

Nos jogos compositivos da artista, a lógica operativa da colagem e da gravura, que grosso modo consiste na sobreposição de partes trabalhadas de maneira distinta a fim de produzir imagens seriadas ou não, permite a ela acessar temas caros à sua trajetória, como as representações da feminilidade, as experiências eróticas e o universo dito natural, das plantas e animais, onde a hibridização mostra-se como uma característica tanto conceitual como formal nas composições. 

Desde o início dos anos 2010, a artista coleciona seres fantásticos que tomam forma em meio a suas técnicas de água-tinta e água-forte, orquestrados por uma alquimia de ácidos e inscrições de riscos de ponta-seca e buril. Sua lógica operativa para a impressão é quase uma ação antropófaga, unindo materiais díspares que, coletados e reunidos de maneira quimérica, dão corpo a figuras paródicas e debochadas, monstruosidades bem-humoradas, orquestradas por uma fatura coreográfica, principalmente a partir da apropriação dos elementos mais virtuosos da técnica empregada, junto a essa mistura de partes distintas de imagens diversas.Assim como na cologravura acontece a união das partes para presenciar o surgimento de uma imagem nova, nos corpos híbridos de Tubenchlak há essa construção quimérica pela gravura, surpreendentemente equilibrada, que propicia a elaboração de metáforas outras sobre experiências banais, violentas, afetuosas e engraçadas.O deboche é o escudo. A lança é o salto alto. E nem sempre uma monstra é uma ameaça, ela é também aviso...

 

 

Ana Carla Soler e Talita Trizoli

curadoria e ensaio crítico

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